segunda-feira, 16 de julho de 2012

Crônicas: a leitura do nosso dia a dia



Vimos que a crônica é geralmente um texto curto que pode divertir o leitor ou levá-lo a refletir criticamente sobre a vida e o comportamento humano. Na última aula nós lemos a crônica Tatuagem de Moacyr Scliar que conta, entre outras coisas, que o amor pode surgir de uma situação bastante inusitada. Vamos relembrar essa história? Leia a crônica abaixo e mostre que reflexão podemos fazer sobre ela.




A Tatuagem
( Moacyr Scliar)

                     
Enfermeira inglesa de 78 anos manda tatuar mensagem no peito pedindo para não proceder a manobras de ressuscitação em caso de parada cardícaca.

Ela não era enfermeira ( era secretária), não era inglesa (era brasileira) e não tinha 78 anos, mas sim 42; bela mulher, muito conservadora. Mesmo assim, decidiu fazer a mesma coisa. Foi procurar um tatuador, com o recorte da notícia. O homem não comentou: Perguntou apenas o que era para ser tatuado.
- É bom você anotar - disse ela - porque não será uma mensagem tão curta como essa da inglesa.
Ele apanhou um caderno e um lápis e dispô-se a anotar.
-”Em caso de que eu tenha uma parada cardíaca” - ditou ela -, ”favor não proceder a ressuscitação”.
Uma pausa e continuou:
-”E não procedam a ressuscitação, porque não vale a pena. A vida é cruel, o mundo está cheio de ingratos.”
Ele continuou escrevendo, sem dizer nada. Era pago para tatuar, e quanto mais coisas tatuasse, mais ganharia.
Ela continuou falando. Agora voltava a sua infância pobre; falava no sacrifício que fora para ela estudar. Contava do rapaz que conhecera num baile de subúrbio, tão pobre quanto ela, tão esperançoso quanto ela. Descrevia os tempos de namoro, o noivado, o casamento, o nascimento dos dois filhos, agora grandes morando em outra cidade. Áquela altura o tatuador, homem vivido, já tinha adivinhado como terminaria a história: sem dúvida ela fora abandonada pelo marido, que trocara por alguma mulher mais jovem e mais bonita. E antes que ela contasse sua tragédia resolveu interrompê-la.
-Desculpe, disse, mas para eu tatuar tudo que a senhora me contou, eu precisaria de mais três ou quatro mulheres.
Ela começou a chorar. Ele consolou-a como pôde. Depois, convidou-a para tomar alguma coisa num bar ali perto.
Estão vivendo juntos há algum tempo. E se dão muito bem. Ela sente um pouco de ciúmes quando ele é procurado por belas garotas, mas sabe que isso é, afinal, o seu trabalho. Álem disso, ele fez uma tatuagem especialmente para ela, no seu próprio peito. Nada de muito artístico, o clássico coração atravessando por uma flecha, com o nome de ambos. Mas cada vez que ela vê essa tatuagem, ela se sente reconfortada. Como se tivesse sido ressuscitada, e como se tivesse vivendo uma nova, e muito melhor, existência.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

EDITORIAL



Olá pessoal,   
         
Nesta unidade estamos vendo a importância de usar os argumentos para defender os nossos pontos de vista. Argumentar faz parte do nosso dia a dia pois estamos sempre emitindo opiniões e defendendo nossas ideias. O editorial é um gênero textual cuja intenção é apresentar e defender a opinião ou a posição de determinado veículo de comunicação diante de um fato ou de uma ideia. Leia os editoriais abaixo e responda às questões propostas.


Os perigos da vaidade



            Sabemos, e não é de hoje, que a sociedade moderna dita os padrões de beleza, que estão massificados nas revistas e nas propagandas de televisão. Ser bonito atualmente é sinônimo de corpo perfeito, sem gordurinhas, músculos exuberantes no caso dos homens e barriga tanquinho e seios turbinados no caso das mulheres.
            Percebemos que, de uma forma geral, as pessoas esquecem ou deixam de lado a beleza natural que existe em cada uma delas e passam a desejar a beleza pregada pela mídia.
            Isso tudo causa um conflito interno muito grande, principalmente nas mulheres, que ficam obsecadas por dietas e cirurgias plásticas. Afinal, o padrão rechonchudo do passado já era. A moda agora é ser magra.
            É difícil achar uma mulher que se sinta feliz plenamente com o seu corpo. A maioria vê defeito nisso ou naquilo, quando não em tudo. Diante disso, encaram as dietas mais malucas possíveis, obviamente que preocupadas em alcançar uns quilinhos a menos na balança, e não com a saúde em si.
            E olha que dietas já não estão tão em alta. Ao menos não tanto quanto as cirurgias plásticas.
            Está com um quilo ou dois acima do peso? Não está se sentido bem? Que academia que nada. A onda é fazer lipoaspiração e ficar sarada sem muito esforço.
            É assim que as jovens de hoje em dia fazem. Crescem já pensando em fazer lipo e colocar silicone.
            Como isso, querendo ou não, virou um comércio e tanto, é possível encontrar de tudo. Profissionais e clínicas que se dizem capacitadas para fazer tais cirurgias, mas que, na verdade, não estão no mercado preocupados em atender quem realmente precisa, e dar a assistência necessária após as operações. Então, é muito importante desconfiar daqueles pacotes completos, a preços acessíveis. O barato pode custar caro. Quem sabe, até uma vida.
            Uma reportagem exibida no Fantástico, no domingo (20), chamou a atenção para o fato de brasileiras estarem morrendo após fazer plástica mais barata em outros países, como Paraguai, Argentina e Bolívia.
            Na matéria, foi citado o exemplo de uma jovem, de 27 anos, que pesava 58 quilos e brilhava em concursos de beleza na cidade dela, no Mato Grosso do Sul, mas queria um retoque no nariz, uma lipoaspiração e a colocação de próteses de silicone no bumbum. Fez tudo isso em um único dia, em uma clínica em Cidade de Leste, no Paraguai. Ficou apenas 24 horas em observação. Depois, mesmo se queixando de fortes dores no corpo, foi liberada pelo médico. Já hospedada em um hotel em Foz do Iguaçu, a jovem morreu de embolia pulmonar causada por uma trombose na perna.
            A mãe não se conforma. Mas agora é tarde para se questionar se ela realmente precisava passar pelo que passou. Esta aí a prova de que a vaidade deve, sim, ter um limite.
            Santa Cruz de la Sierra, a maior cidade boliviana, é um dos destinos mais procurados. A maioria das brasileiras escolhe as clínicas pela internet. Um médico usa um site, em português, para fazer propaganda, prática condenada pelo Código de Ética da Medicina. Infelizmente, a venda casada, proibida no Brasil, é comum nos países vizinhos.
            Esperamos que estes casos de finais tristes sirvam para alertar as pessoas que beleza não é tudo na vida. Aliás, que a vida pode chegar ao fim, quando a vaidade é maior que o bom senso.
            Está na hora de refletir até que ponto o conceito de beleza mundial deve estar em primeiro plano e a busca pelo corpo perfeito deve ser uma obsessão.
            Está na hora de dar um basta a esta sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas e de jovens lipoaspirados e turbinados.
Gordura não é pecado mortal. Ruga não é contravenção. Envelhecer pode, roubar não. Estria não é caso de polícia. Celulite não é falta de educação.
            Que as pessoas possam rever seus conceitos. E que deixem de ser escravas da própria imagem.




Seca na fiscalização
                       

            Passados três meses de vigência da chamada lei seca, multiplicam-se as pesquisas e estatísticas que apontam os seus benefícios. O número de mortes diminuiu nas estradas e na cidade, poupando vidas e economizando recursos para a saúde pública.
            Ainda que seja prematuro tirar conclusões definitivas com os dados disponíveis até o momento, é inegável que a medida auxiliou na repressão ao costume, irresponsável, de dirigir sob forte influência do álcool.
            O tempo, no entanto, começa a pôr à prova a nova lei. Como a Folha informou ontem, os últimos dados da Polícia Rodoviária Federal indicam que está caindo progressivamente o ritmo de diminuição de mortes na estrada, à medida que o impacto da medida se dissipa. Se for confirmada ao longo dos próximos meses, a informação indicará um grande retrocesso.
            A lei, que vigora desde junho, prevê limite de dois decigramas de álcool por litro de sangue, o mesmo que um copo de chope. Acima disso, o motorista é multado em R$ 955, recebe sete pontos no prontuário de motorista e tem o carro apreendido. A partir de seis decigramas, a infração passa a ser considerada crime, e o motorista pode ser detido.
            Apesar de seu caráter draconiano e de conter aspectos incompatíveis com a Constituição, a lei seca é bastante popular. Pesquisa do Datafolha mostra que, em São Paulo e no Rio, o índice de aprovação é de 86%.
            A aceitação não significa, no entanto, que o diploma mude a realidade automaticamente. A experiência mostra que não bastam novos instrumentos para mudar costumes enraizados. A lei anterior já era rigorosa, mas jamais recebeu a atenção devida das autoridades a quem cabia aplicá-la.
            É provável que os novos dados da Polícia Rodoviária Federal evidenciem, justamente, relaxamento na vigilância. Ou o poder público entende a importância decisiva da fiscalização permanente, ou a lei seca em pouco tempo vai tornar-se letra morta.

Folha de S. Paulo – 24/09/2008

QUESTÕES

1. Faça uma análise sobre o tema abordado no editorial “Os perigos da vaidade” comentando os trechos: “ a busca pelo corpo perfeito pode virar uma obsessão” e “a vida pode chegar ao fim quando a vaidade é maior que o bom senso.”

2. No editorial “Seca na fiscalização” vimos que a lei seca vem auxiliando na repressão ao costume irresponsável de dirigir alcoolizado. Dê a sua opinião sobre esse tema e aponte sugestões para resolver ou amenizar o problema.