terça-feira, 16 de outubro de 2012

Projeto Nossas Histórias - Nosso Lugar




    


NOSSAS HISTÓRIAS
NOSSO LUGAR







Apresentação

       Este projeto foi desenvolvido durante as aulas de Língua Portuguesa da Escola Faustiniano Ribeiro Lopes com o intuito de promover a leitura e a produção de contos ambientados na caatinga, bem como  memórias produzidas com base nas vivências das pessoas que fazem parte da nossa região, o que permitirá um maior envolvimento dos alunos com a realidade de seu contexto local.
Espero que apreciem.
Abraços.

Leana Abreu






No meu tempo...
(Anderson Silva Rocha)

Aos seis anos de idade, eu, meus irmãos e meus pais íamos para as roças buscar lenha, porque naquele tempo não existia energia elétrica. Nós, as crianças, achávamos muito bonito os adultos fazendo renda e eu também achava muito lindo a minha avó fiar para fazer o tecido no tear.
Gostávamos de brincar de boneca de pano ou sabugo e milho. Era muito lindo quando o senhor José de Brito chegava com oito ou dez burros carregados de mercadorias como: café, tecido, peixes e etc. Ele levava seus burros carregados de toucinho e vinha com outras mercadorias trazidas da Barra, Rio Verde, Xique-Xique, e também do outro lado do Rio São Francisco, pois ele era um mascate ou tropeiro, e tudo que ele trazia na feira era vendido na feira debaixo de uma quixabeira, onde se vendia potes, milho, feijão, tijolos de doce de banana, goiaba e também rapadura...
Eles já levavam uns animais com comida, à noite descansava e dava comida aos animais. Nós ficávamos boquiabertos quando conhecíamos coisas novas.
O sal que seu José de Brito trazia naquele tempo tinha que ser quebrado no pilão porque não era moído, era em pedras. O café também não era em pó, era em grãos e precisava ser pisado
Como não existiam carros onde morávamos, quando ouvíamos barulho corríamos e nos escondíamos.  Naquele tempo, as crianças tinham medo de avião, pois achavam que ele poderia cair em cima de suas cabeças.
 Eu não conhecia nem rádio nem bicicleta, mas éramos felizes. As escolas eram muito longe, ficavam nas cidades de Morro do Chapéu, Jacobina etc. Mas gostei de viver na cidade São Gabriel-Ba. E adorei minha infância.
   

Escola que faz lembrar
(Georgino Alexandrino da Gama)

Aqui neste lugar onde moro não tem muito pra contar. Mas, aqui tem “escola” que dá gosto de olhar. Ela já é um pouco velha e acabada pode ficar, mas ela tem história de coisas antigas para se lembrar.
No tempo em que estudava na escola era uma coisa mágica, bem encantada. O professor nos falava de brincadeiras antigas que hoje não se vê mais. Daquelas que meu avô e meu pai brincavam quando crianças: pula sela, esconde-esconde, pula corda e muito mais.
Lá na velha escola aprendi a ler, a escrever e a desenhar. Posso dizer que lá aprendi a sonhar. Meus primeiros amigos,  encontrei na velha escola. Eu brincava e conversava com eles e me sentia bem, sem saber que no futuro poderia ter amigos melhores. Mas, a tranquilidade mora na escola.  Ela pode ser pequena, feia e até pior, mas ela me trouxe e me traz valores fortes.
A escola mudou, os professores mudaram, os alunos mudaram, o quadro mudou e a pintura também mudou. Mas, pra mim, ela vai ser a mesma escola, a escola que me faz lembrar.


A velha quadra de esportes
(Pietra Ferreira de Almeida)

O lugar onde vivo chama-se Gabrielzinho, um lugar bem pequeno que faz parte do município de São Gabriel-Ba.
Aqui no lugar onde vivo não tem muito lugar para se divertir, pois é um lugar pequeno e pouco movimentado, o único lugar onde os adultos, jovens e crianças se divertem é a velha quadra de esportes. Lá acontecem vários tipos de jogos, como vôlei, futebol e baleado. Nas terças e quintas à noite acontecem os jogos de vôlei. O meu pai além de jogar com o pessoal de fora da cidade, treina os jovens para disputar os torneios.
Na velha quadra de esportes as crianças e os adolescentes preferem jogar o baleado nos sábados e domingos. As crianças se divertem pois é o único lugar de lazer que elas têm para se divertirem.
O futebol acontece nas segundas e quartas e é disputado por mulheres e homens.
A velha quadra de esportes é bem legal, pois é lá que as pessoas que estão magoadas e tristes ficam alegres e se divertem bastante. A velha quadra de esportes está caindo aos pedaços, pois é bem antiga e há vários anos não passa por reformas o que torna perigosa a permanência das crianças. Mas fazer o que se a velha quadra é o único lugar que as pessoas têm para se divertir.
O lugar onde vivo é muito pequeno e sem muito lazer para as famílias. Além da velha quadra de esportes só existem alguns bares espalhados pelas ruas. Mas mesmo assim eu já me acostumei com tanta tranqüilidade e o considero um lugar especial, pois é lá na velha quadra que eu encontro minhas amigas todas as noites.
 Para mim todos devem valorizar a velha quadra, pois é um lugar de sonhos e onde a felicidade acontece tornando nossas vidas mais intensas.



A caatinga e suas belezas
(Moisés, Laila, Georgino e Tanise)

                Numa tarde tão linda de sol um grupo de amigos foi se aventurar na caatinga. Então começaram a explorar a caatinga, onde conheceram as principais plantas: o mandacaru e a jurema. Mas o que eles gostaram mesmo foi do cardeiro, por sua beleza incrível de nascer sem ninguém plantá-lo.
     Eles também encontraram muitos animais, entre eles o calango e o preá. A Maria pensou que o preá fosse um rato e pulou nos braços do Pedro. Ele explicou para Maria que aquele bichinho pequeno não era um rato e sim um preá.
     Então começaram a tirar fotos e se aventuraram no meio de tantas belezas em um só lugar que é a caatinga. De repente andaram, andaram até encontrar um enorme pé de umbu com aquela sombra gigante, boa para descansar. E foi isso que eles fizeram depois de chupar os umbus maduros que tinham no pé.
     Depois que descansaram eles foram embora felizes por terem conhecido a importância e a beleza da querida caatinga.



A seca na caatinga
(Tiago e Delvan)

     Era uma vez na caatinga uma coruja que sabia de tudo. Ela teve uma visão que iria chover e saiu espalhando a noticia por toda a caatinga.
     Todo mundo falava que era mentira da coruja, já que na caatinga não chovia há meses. Então a coruja voou para a sua toca e esperou anoitecer.
     Quando a noite chegou com as nuvens carregadas de água que tampavam o céu, não dava para ver nada. Então começou a chover e todos os animais falavam:
     _ A coruja estava com a razão.
     No outro dia os animais pediram desculpas para a coruja. Ela falou:
     _Está tudo bem, não precisam pedir desculpas. Então a coruja voou para a sua toca e foi descansar.
     No outro dia a coruja teve outra visão que iria chover e falou para todo mundo e todo mundo se preparou para a chuva e assim pra frente, em cada ano dava uma chuva.
     Chegou o outro ano e a seca apertou, apertou e a coruja nada de ter outra visão. E as árvores foram secando, secando, até que não restou nem uma folha. Então a coruja teve outra visão que em pouco tempo iria chover e inundar tudo. Ela saiu anunciando por toda a caatinga. Todos que moravam no solo ficaram em cima das árvores. Ficaram quatro dias inundados. Quando secou, estavam cheios de alimentos para comer.



Um mistério na caatinga
(Vitória, Beatriz e Gabriela)

     Eu sou o Calango e vim me apresentar. Essa história aconteceu nos meus tempos de juventude.
     Foi assim. Alguns animais viviam reclamando pois seus pertences estavam sumindo.
     O Preá dizia:
     _ Sumiu minha pomada.
     O Calango dizia:
     _ Sumiu minha escova.
     De tanto ouvir reclamação o prefeito contratou uma detetive que, em várias tentativas, não conseguiu desvendar o mistério.
     Um dia uma cobra muito estranha começou a perambular pela cidade. Os moradores, mortos de medo e curiosidade, perguntaram:
     _ De onde você é dona Cobra?
     Ela respondeu:
     _ Eu sou do oeste. Sou uma super detetive e vim desvendar o mistério.
     Passou-se dois dias e a cobra mandou reunir todos os animais da caatinga na praça rochosa. Quando os bichos chegaram, a cobra gritou:
     _ Desvendei o mistério! Foi o Tatu! Vou explicar.
     O Tatu escalavacou por baixo da terra e ia roupando todos os pertences de vocês.
     _ E como vamos capturá-lo. É muito difícil de pegá-lo, disse um deles.
     _ Vamos esperar sair à noite e o pegamos, disse a cobra.
     E deu tudo certo. Até hoje a cobra é parabenizada pelo seu ato de coragem. Mas até hoje o Preá não conseguiu recuperar sua pomada.


Amor na caatinga
(George, Lucas, Ueslei e Anderson)

     A vegetação predominante no nordeste é a caatinga, que abriga mais de 823 espécies de animais e mais de 3000 espécies de plantas.
     Um dia na caatinga surgiu uma paixão entre Virgulino e Raimunda. Eles eram índios que se conheceram num ritual para invocar os deuses. Mas eles não podiam ficar juntos porque eram de tribos inimigas.
     Virgulino e Raimunda marcaram um encontro na caatinga e se divertiram bastante debaixo do pé de barriguda.
     Três meses depois descobriram que Raimunda estava grávida. Sua mãe então perguntou:
     _ Quem é o pai da criança?
     Raimunda logo disse:
     _ É Virgulino!
     O pai de Raimunda, furioso, falou:
     _ Aquele infeliz agora tem que casar!
     Seis meses depois do casamento Virgulininho nasceu todos viveram felizes na grande caatinga.

   


Um pequeno de grande coragem
(Ana Care)

Amanhecia mais um dia na caatinga. Um sol forte numa terra seca.
     Os animais acordavam para mais uma jornada cansativa. As ovelhas iam procurar troncos grossos para fazer colmeias, os veados foram buscar frutos de quixabeiras, os teiús foram buscar folhas, os preás macambiras que são usadas como fonte de água.
     Chegava a noite e as corujas com seu belo canto anunciavam o fim de um duro dia de trabalho.
     Na caatinga havia também uma gangue de exterminadores que eliminavam os animais que não entregassem a comida. Mas o pequeno Preazinho não estava nem um pouco satisfeito com aquela situação. Ele não queria que os animais trabalhassem cansativamente o dia todo para entregar comida e depois chegar um bando de preguiçosos e levar tudo. Ele queria que os animais se unissem e lutassem por seus direitos.
     Mas os animais tinham muito medo, entregavam a comida e depois iam embora. Então o Preazinho insistiu que se todos se unissem, eles venceriam e poderiam ficar com toda a comida encontrada.
     Então o Preazinho resolveu enfrentar a gangue sozinho e foi a procura dela.
     No dia seguinte seus amigos foram atrás dele pois achavam que ele estava maluco de enfrentar uma gangue daquele tamanho.
     Mas não podiam deixá-lo sozinho. Lutaram bravamente e por pouco não perderam a luta.
     O Preazinho foi atingido e ficou muito tempo mal mas sobreviveu com seu ato de coragem. Todos entenderam que a união faz a força e nunca mais tiveram que entregar sua comida tão suada.





A chegada da chuva
(Anderson Silva)

Há muito tempo atrás numa caatinga não muito longe daqui morava um Calango que gostava de conversar com seus amigos: o Mandacaru e a Jurema.
- A água está cada vez mais difícil. Minhas raízes estão indo cada vez mais fundo na terra e mesmo assim não consigo encontrar nenhuma gota de água - disse a Jurema.
- Minhas reservas de água nas minhas raízes já estão secando. Logo vou morrer de sede - reclamou o pobre Mandacaru.
- Debaixo deste sol incandescente desta terra esturricada vou procurar um lugar que tenha água e me mudar para lá – disse o Preá que acabara de chegar.
O Calango veio correndo para se juntar ao outros. Logo começou a falar:
- Preá! Você tem um pedaço de raiz ou inseto e um pouco de água para me dar, pois estou morrendo de fome e de sede?
- Não! Estou comendo cascas de árvores para matar minha fome – disse o Preá.
Conversa vai, conversa vem e todos vão dormir para aproveitar o frescor da noite para repor as energias. Mas naquela noite tudo estava diferente. O céu estava nublado e havia muito vento.
Naquela noite, exatamente à meia noite começou a chover para matar a sede dos animais e das plantas e acabar com aquele calor insuportável.
No outro dia apareceram a Cobra, o Gavião e o Lobo. Todos estavam muito alegres e até esqueceram suas diferenças naturais. Fizeram uma festança com muita comida e bebida para comemorar a chegada da chuva.

 

Tempos que não voltam
(Minelvina da Cruz)

            Eu trabalhava na roça, arrumava a casa, carregava baldes de água da cacimba na cabeça. Nos meus tempos de criança nós brincávamos de boneca, queimada, bola, casinha, caiu no poço etc. Os meninos brincavam de bola, matavam preás, corriam atrás dos passarinhos no meio das capoeiras.
           As casas eram feitas de pedra e outras de tijolos. Não havia supermercado, como até hoje não tem e tínhamos que andar muito para comprar os alimentos. Os fogões eram a lenha, que nossas mães traziam na cabeça. A estrada era cheia de mato, diferente de hoje que está maior e mais limpa.
           Eu ia para as festas, meu pai ia me buscar com o cinto na mão e eu ficava injuriada. Antigamente na Matinha havia muito mato e apenas três casas. Depois foram surgindo mais casas. A água era pouca e não tínhamos luz elétrica. Para lavarmos as roupas tínhamos que retirar a água das cacimbas.
          Quando eu comecei a estudar na Matinha, a escola já era pública, não havia merenda, caderno e os livros tínhamos que comprar. Às vezes eu ia com fome para a escola por falta de dinheiro, pois a nossa situação financeira era muito difícil. Hoje as coisas melhoraram, não são como antes que trabalhávamos na roça porque não havia outro trabalho. Mas mesmo sendo tudo tão difícil, nunca passamos fome.
         


Tempos inesquecíveis
(Ana Care Alencar de Oliveira.)

No ano de 1970, cheguei no município de São Gabriel, um lugar simples onde a poeira cobria a face de um povo sofrido.
Com as mãos calejadas, escorrendo do seu rosto o suor do seu trabalho. Tempo difícil era aquele. Ruas sem calçamento, quando chovia atolavam tudo até as próprias pessoas e o pior, nós moradores perdíamos o que conquistávamos com o suor do trabalho: moveis e cereais.
Naquele tempo, a água, muito difícil, era trazida de carro pipa. Os moradores chegavam a pagar 0,50 centavos a lata d´água, enquanto hoje as pessoas desperdiçam sem nem imaginar o sofrimento que era conseguir essa beleza natural. A única água que havia era salgada.
Naquela época, não existia hospital, você pode imaginar o sofrimento? Os doentes eram levados de Irecê a Salvador, transportados de D20 (carroceria fechada). Em casos muito graves alguns até morriam.
Não é tão diferente de hoje, pois há hospital mas as filas são muito grandes. Alguns morrem a espera de atendimento, pois não há médicos.
Aqui também não havia tanta diversão para as crianças, somente um pequeno campo de futebol e, mesmo assim, elas eram felizes, brincando ao ar livre e construindo seus próprios brinquedos. Bem diferente de hoje, pois as crianças só pensam em computador, vídeo game, bonecas que falam. Não dão valor as brincadeiras que fizeram parte da infância de muitas crianças.
Não havia energia elétrica, os moradores viviam no escuro. Só havia candeeiro para iluminar um solo cheio de esperança. De todas as formas de trabalho, a maioria era no campo. E o mais curioso: não havia política. Bem diferente de hoje.