sábado, 19 de outubro de 2013

Como concluir a redação



Como concluir a redação

Uma das razões para concluir bem o texto está na velha máxima de que a última impressão é a que fica. A conclusão deve ser coerente com o ponto de vista e com os argumentos apresentados, de modo a conferir unidade à exposição. Ela tem basicamente duas funções: fazer uma breve retomada do que foi dito, confirmando a tese, e apresentar sugestões para o problema tratado no desenvolvimento.
Retomar o que foi dito implica suspender a argumentação, ou seja, não prolongar a defesa do ponto de vista. Quando se chega ao último parágrafo, o problema já foi suficientemente discutido e cabe ao candidato propor soluções para resolvê-lo. A tendência é que se concentre nessa parte do texto a "proposta de intervenção solidária", de que trata a Competência 5 do Enem. Essa proposta deve ser "detalhada" e "exequível" (ou seja: viável).
É por não atender a esses dois requisitos que muitas conclusões falham. Vejamos um exemplo na seguinte passagem de uma redação sobre "nível cultural e opção religiosa": "Por tudo isso, seria necessário informar as pessoas para que o preconceito contra os religiosos acabasse de vez. Elas deveriam ser impedidas de ter uma mentalidade errada quanto a isso, pois a religião não mede o nível cultural das pessoas."
Os problemas dessa conclusão começam com o uso do futuro do pretérito. Se o candidato não está convicto do que propõe, como é que vai convencer o leitor? "É necessário" (no presente) passaria a ideia de firmeza e convicção. Quanto às propostas, nada mais vago do que simplesmente dizer que se deve "informar as pessoas". Informar por que meios - palestras, campanhas educativas, esclarecimentos através da mídia? Faltou detalhar. E como impedir que as pessoas tenham uma "mentalidade errada" (ou talvez um "pensamento errôneo") sobre os religiosos? Mudar uma mentalidade leva tempo e depende de ações concretas; o aluno não citou nenhuma.

Para que a conclusão cumpra o seu papel, verbos como "conscientizar", "despertar", "orientar" e semelhantes não devem ser usados sem que a seguir se apontem os meios pelos quais se podem efetivar essas ações. Além disso, é fundamental evitar propostas utópicas ou simplistas. Um aluno escreveu que para acabar com a discriminação contra as mulheres "é preciso mostrar que as pessoas são iguais". Infelizmente esse nobre princípio não basta para mudar a opinião dos que discriminam o sexo feminino. Produziria mais efeito, por exemplo, demonstrar que a igualdade entre os sexos se impõe devido às novas configurações da família e do mercado de trabalho.

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Escrever é sobretudo comunicar

- Pai, o professor baixou a nota da minha redação porque usei "mormente" em  vez de "sobretudo".
- Bem feito! Eu lhe disse para não sair desprotegido nesse tempo frio!
Levei esse diálogo para a classe porque um aluno tinha usado "mormente" numa redação. Foi nesta passagem: "As manifestações que tomaram conta do Brasil deviam interessar mormente aos excluídos."
"Mormente" é o mesmo que "sobretudo", de modo que o estudante não falhou quanto à semântica; apenas se mostrou um tanto pedante. A palavra que ele escolheu tem um ranço formal, bacharelesco, que afasta ou desorienta o leitor comum. Uma prova disso é a resposta que o pai deu ao filho.
O diálogo acima é uma anedota. Como geralmente ocorre nos textos de humor, o riso decorre de uma confusão de sentidos - no caso, a confusão que o pai faz entre dois homônimos: "sobretudo" é advérbio e também substantivo (neste caso, significa "casaco que serve de proteção contra o frio e a chuva").
Mas não bastou isso para gerar a ambiguidade que levou ao efeito humorístico. A homonímia seria insuficiente caso não houvesse a polissemia do verbo "usar", que significa tanto "empregar" quanto "vestir" (além de outros sentidos que o dicionário registra). Se o menino tivesse dito ao pai que o professor baixou a nota porque ele escrevera (e não "usara") "mormente", o pai não teria feito a confusão. Não lhe ocorreria considerar "mormente" um tipo de casaco, mas o velho continuaria ignorando o que esse vocábulo quer dizer.
Se alguma coisa a anedota ensina, é que é melhor evitar palavras difíceis, pouco usuais. Além do ar pernóstico que dão ao texto, elas deixam o leitor no ar ou o levam a deduzir sentidos absurdos, a partir de falsas aproximações. Isso em nada favorece a leitura.  

Ao comentar a redação, perguntei à turma o que queria dizer "mormente". Quase ninguém sabia. O autor da frase era então uma ave rara. Louvei seu hábito de consultar o dicionário, que é fundamental para ler e escrever bem; esse hábito o colocava à frente dos outros. Mas o adverti de que a boa erudição é a que não transparece de forma ostensiva. O primeiro dever de quem escreve é se comunicar, por isso o texto deve estar ao alcance de todos. Até de um pai que não sabe distinguir um advérbio de uma peça do vestuário.